
O deputado Manuel Fernandes entra para a história da CASA-CE como terceiro presidente da coligação, depois de Abel Chivukuvuku e André Mendes de Carvalho. Em entrevista ao Jornal de Angola, o político enquadra a sua indicação, por quatro dos seis partidos da coligação, com a necessidade de mudança na liderança, para propiciar “novos métodos de trabalho e uma maior dinâmica na organização”.
Promete fazer uma “oposição séria e comprometida com a cidadania”, bem como andar pelo país, ao encontro do cidadão, como fazia Chivukuvuku. Critica a forma de liderança de André Mendes de Carvalho, afirmando, a dado momento, que “a CASA-CE quase desapareceu do debate e dinâmica política”. Ainda assim, diz contar com o apoio do antecessor porque, apesar de tudo, “é uma pessoa valiosa, activa e com ideias”
Há dois anos, cinco partidos integrantes da CASA-SE decidiram afastar da coligação o então líder, Abel Chivukuvuku, por alegada “quebra de confiança”. Este ano, quatro das seis formações que compõem a coligação decidiram afastar o presidente, André Mendes de Carvalho. Não acha que essas trocas na liderança podem quebrar a confiança dos militantes?
Tivemos a segunda saída de alguém da presidência da CASA-CE, é um facto. A primeira podemos considerar que foi uma crise porque o presidente foi retirado da liderança e ele, por sua vez, decidiu abandonar a coligação.
Como consequência, um grande grupo que fazia parte da CASA-CE, constituído por pessoas que já vieram com ele da força política em que fazia parte, bem como outros que aderiram à coligação, também manifestaram constrangimentos e, infelizmente, deixaram a CASA-CE, tendo em conta a empatia que nutrem pela figura do então presidente…
No segundo caso, não se tratou de uma crise, mas de uma mudança da liderança. Ele (André Mendes de Carvalho) mantém-se connosco.
Não haverá uma quebra de confiança dos nossos militantes, antes pelo contrário, estão satisfeitos e eu não paro de receber mensagens de solidariedade e de esperança pelos melhores dias. Com isso, pesa, ainda mais, a nossa responsabilidade por aquilo que devemos fazer enquanto líderes da CASA-CE. A coligação está a ressurgir da inércia que viveu durante muito tempo.
Qual vai ser a prioridade no seu mandato?
A minha prioridade é preparar a máquina para os grandes desafios políticos que se aproximam. Vamos tentar reestruturar os órgãos internos da CASA-CE, particularmente os intermédios e os de base, pois, no ponto de vista de ligação com a direcção, quase que não havia uma relação muito dinâmica.
E um político sério, que quer trazer uma inovação para o país e alternativa positiva, tem que estar por dentro dos problemas reais que o povo vive.
Que mudanças concretas pretende fazer?
Vamos ter uma nova dinâmica, a de andar pelo país e interagir com os cidadãos, quer seja nos centros urbanos, quer nos suburbanos. Vamos ter uma política actuante e fazer uma oposição séria e comprometida com a cidadania.
Vamos restaurar a confiança dos angolanos pela CASA-CE, enquanto força política activa, dinâmica e pronta para assumir os destinos do país.
Vai contar com o apoio do deputado André Mendes de Carvalho?
Obviamente que sim! Aliás, ele próprio disse que não sai da CASA-CE, vai continuar a dar o seu contributo a nível do grupo parlamentar. No acto de empossamento, enderecei palavras de afecto pelo trabalho feito pelo então presidente, André Mendes de Carvalho, porque assumiu a liderança num momento difícil da CASA-CE.
Ele é uma pessoa valiosa e activa e com ideias que, pensamos, poderão servir de facto a organização.
Se é uma pessoa valiosa e activa, como diz, por que a organização entendeu retirá-lo da liderança?
Uma coisa é ser activa no ponto de vista de concepção de ideias, de visão para o país, e a outra é a dinâmica política para fazer chegar essas ideias ao cidadão, bem como também a dinâmica política para ganhar confiança dos cidadãos.
As preocupações vieram de todas as partes e, por isso, hoje, conseguimos restaurar esta esperança e vamos contar, sem dúvida, com o apoio e a experiência do nosso mais velho André Mendes de Carvalho.
Acha que terá tempo suficiente para preparar a CASA-CE com vista a um resultado satisfatório nas eleições autárquicas e gerais?
Estamos a preparar-nos para as eleições autárquicas e gerais. É verdade que muitos estão a dizer que esta medida devia ser tomada há mais tempo, mas dizemos que nunca é tarde, porque temos mais de um ano para podermos trabalhar para prepararmos a CASA para as eleições.
Quando estamos a falar do autarca não estamos apenas a referir-nos ao candidato a presidente da câmara municipal, porque também são autarcas os membros da assembleia municipal e os secretários municipais que vão fazer parte do governo municipal. Estes deverão ser dotados de algum conhecimento político e, também, de gestão das autarquias.
Alguns críticos e analistas políticos afirmam que a coligação está a perder força e o senhor não conseguirá contrariar essa tendência. Quer comentar?
Eu respeito a vontade e a opinião dos outros. Aqui temos um vírus bastante perigoso: algumas pessoas subestimam demais a capacidade dos outros. Há pessoas que acham que devem ditar as agendas das organizações.
Agora, o que espero é que as pessoas nos deem, pelo menos, o benefício da dúvida e permitam-nos trabalhar e demonstrar um pouco aquilo que podemos fazer. Depois podem julgar-nos.
Acha que será uma tarefa fácil?
Sei que a tarefa não será fácil! Não terei pouco trabalho, mas tal como já disse no acto de empossamento, a CASA-CE tem quadros capazes, com ideias sólidas, com valências positivas e ideias inovadoras.
É verdade que todo e qualquer trabalho político desta índole exige sempre o grande elemento que são os recursos para atingir os objectivos que se preconizaram…
E a CASA-CE tem recursos financeiros para o efeito?
Os recursos que recebemos a nível do Orçamento Geral do Estado são ínfimos porque temos uma grande dívida a pagar. Sabe-se que nas eleições passadas, no consulado do presidente Chivukuvuku, contraiu-se uma dívida acima de cinco milhões de dólares a uma empresa chinesa. Ele saiu, mas a CASA-CE continua e tem a obrigação de assumir o passivo, pagando a dívida.
E por que até agora não se liquidou a dívida?
Não temos capacidade de pagar de uma só vez porque a CASA-CE tem outras despesas. Estamos a pagar por duodécimos os cinco milhões de dólares. Olhando para o contexto actual do país, para aquilo que recebemos, não temos como pagar de uma vez, porque o que recebemos do Orçamento Geral do Estado está aquém deste valor. O que arrecadamos das quotas e contribuições especiais dos nossos militantes também não chega para pagar este valor. Chegamos a um acordo com o empresário e estamos a pagar de forma faseada.
Acredita que conseguirá trazer para a CASA-CE o mesmo protagonismo que a coligação tinha na liderança de Abel Chivukuvuku?
Os homens não são iguais, mas semelhantes. Não sou igual ao Dr. Chivukuvuku. Ele tem a sua forma de trabalhar e eu tenho a minha. Mas, acho que convergimos no ponto de vista de como é que devemos actuar politicamente.
O modus operandi não vai ser igual, até porque também seria falta de inovação da minha parte. Vamos repor a dinâmica da CASA-CE. Se o trabalho de proximidade do Dr. Chivukuvuku era chegar (a um local), beijar e abraçar as pessoas, eu não vou poder fazer isso, até porque o contexto do país não permite. Ainda que não fosse o contexto do país, por causa da pandemia, se eu tivesse que fazer isso, seria uma imitação.
Então o que vai fazer de diferente?
Vamos fazer o nosso trabalho de proximidade, andar a nível dos bairros, falar com os cidadãos, transmitir-lhes aquilo que constatarmos, qual é a nossa visão sobre o contexto do país hoje e como é que tinha que ser.
Vamos, também, libertar um pouco a consciência das pessoas e prestarei maior atenção aos órgãos sociais, a JPA (Juventude Patriótica de Angola) e a MPA (Mulher Patriótica de Angola) – organizações de massas da CASA-CE.
André Mendes de Carvalho diz que foi alvo de uma conspiração levada a cabo pelos líderes de quatro partidos que o convidaram a liderar a CASA, depois do afastamento de Chivukuvuku.
Há um provérbio em kikongo que diz que não se deve perguntar o sexo do cão porque ele até não anda vestido. Portanto, o contexto real da CASA-CE é sabido por todos.
Pessoalmente, tive vários encontros privados com ele para chamá-lo a atenção para a necessidade de mudança de estratégia da actuação política, mas o grande problema das organizações é que muitos líderes entendem que o seu pensamento é que vale e que deve ser aceite, caso contrário, sente-se indisposto em continuar na liderança.
Era este o posicionamento de André Mendes de Carvalho?
O presidente Mendes de Carvalho, numa das conversas que tivemos, bem como na sua última conferência de imprensa, terá dito que “ou vocês aceitam esta minha filosofia de trabalho, ou indicam um outro líder”.
Foi isso que motivou o envio de uma carta ao presidente Mendes de Carvalho para que reflectisse, no final de semana a seguir, e voltássemos a conversar na segunda-feira, porque a carta foi-lhe entregue numa sexta-feira…
E o que aconteceu depois?
Surpreendentemente, o presidente Mendes de Carvalho veio a público dizer que aceitava o pedido de colocar o cargo à disposição, não dando mais oportunidade para o diálogo. Como aceitou o pedido, não se podia fazer nada, senão reorganizar a CASA-CE para continuar com o seu propósito, já num novo contexto, o de repor a sua dinâmica e forma de actuação a que os angolanos já estavam acostumados.
Defendia ou não a saída de Mendes de Carvalho?
Não defendíamos a saída porque estávamos acima do tempo, mas estávamos a pedir que houvesse uma mudança na dinâmica e estratégia de funcionamento da CASA-CE, bem como de actuação do líder.
Entendemos que a criação de núcleos não deve ser uma actividade principal do presidente, mas sim coordenada pelo secretário executivo provincial e executada pelas bases.
O presidente velaria apenas pela proximidade com as bases?
O presidente tem a função de conceber ideias para a CASA-CE, encontrar meios para garantir a funcionalidade da coligação, fazer leitura do país e apresentar políticas alternativas aos angolanos, andar pelo país, conhecer a realidade dos angolanos, quer seja no asfalto, quer fora dele. Isto permitiria que, no futuro, quando tiver que elaborar as políticas governativas para o país, tenha conhecimento factual da realidade de todo o país e as políticas a serem elaboradas darem resposta às necessidades fundamentais dos cidadãos.
Mas não foi possível convencermos o presidente e sentimo-nos convencido de que havia necessidade da mudança.
Almejava ou não a presidência da CASA-CE?
No tempo do presidente Chivukuvuku, ele sempre dizia que estava a me preparar para que, quando saísse, eu pu-desse assegurar a coligação. A verdade é que sempre pensei e nutri a ideia de um dia vir a ser presidente da CASA-CE.
O objectivo é ser presidente da CASA-CE e, amanhã, ser candidato a Presidente da República, trabalhar para vencer as eleições e poder dirigir os destinos do país.
O maior obstáculo da CASA-CE é a sua transformação em partido político. Acredita que vai conseguir concretizar esse desejo dos militantes?
Na vida temos que saber separar as prioridades. Temos um conjunto de tarefas e acções onde não se coloca à margem este princípio que seria útil para granjear confiança de muita gente sobre a solidez da própria organização. Mas é, ainda, uma questão fracturante, por ainda não espelhar o consenso de todos.
Eu entendo que isso é fundamental, mas a transformação pode ser concretizada antes ou depois das eleições. O que queremos é a coesão…
Precisamos de reformas a nível da Administração Pública
A CASA-CE não está coesa?
A CASA-CE, longe daquilo que se cogita, nomeadamente o seu fim, a coligação está coesa, firme e com esperança de uma nova dinâmica e melhores resultados ainda nas próximas eleições.
A coligação que agora dirige defende a revisão da Constituição. Na sua opinião, que alterações acha que devem ser feitas?
É verdade que temos uma Constituição atípica. Do ponto de vista dos direitos fundamentais, é uma Constituição boa, mas na parte da organização do poder político ali é que temos muita coisa que deve ser revista.
Penso que o Presidente poderia apenas conferir posse e não fazer a indicação.
Que reformas urgentes devem ser feitas no país?
Primeiro é avançar para uma reforma constitucional que permita que os órgãos estejam potenciados e serem verdadeiramente fortes.
Devemos promover a cultura da lei. Os servidores públicos devem temer a coisa alheia. É verdade que a política para a moralização da sociedade está a tentar surtir o efeito desejado da acutilância dos órgãos da justiça.
Qual é avaliação da CASA-CE em relação ao combate à corrupção e ao repatriamento de capitais?
Sempre defendemos que devia-se encontrar um mecanismo diferente para uma lufada de ar fresco às finanças do nosso país que é trazer o dinheiro que saiu daqui ilicitamente.
Sempre fez parte da cúpula e acredito que grandes males que este país viveu devem ser assumidos pela cúpula. O Presidente da República começou o combate à corrupção com uma posição truculenta. Ao invés de promover o diálogo interno, veio com medidas e pronunciamentos públicos…
Qual é, então, a avaliação?
O tempo ainda não está perdido. Acho que, a nível interno, o MPLA deve encontrar outros mecanismos para haver o repatriamento de capitais.
Todos nós tempos responsabilidade pelo estado em que o país se encontra, mas o MPLA tem maior responsabilidade porque é quem governa há mais de 45 anos.
É deputado à Assembleia Nacional, onde ocupa o cargo de quarto vice-presidente. Com a assumpção da liderança da CASA-CE pensa suspender o mandato no Parlamento?
Tenho responsabilidade a nível da presidência da Assembleia e da mesa e se tiver que sair tenho que pedir autorização ao presidente da Assembleia Nacional.
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